Monday, March 19, 2007

De fato, acontece

Sexta-feira, 9 de março, 15h34

Sétimo dia na "Terra da Garoa". Que garoa que nada. O sol estufa os pulmões cosmopolitas num peso de 31º. A Avenida Paulista, orgulho de tantos, fervilha. Gente pra lá e pra cá. Mesmo sob o sol escaldante, os corpos são escondidos. Ou, no máximo, modestamente expostos.

No país miscigenado, eis uma cidade clara. As etnias de origem são européias e asiáticas. Mas, decerto, essas "cores" prevalecem nas elegantes e excludentes ruas do centro.

Um chope cor-de-vinho sacoleja com os escritos sobre a mesa. Tão cedo, já há quem desacelere na esquina entre a Paulista e a Padre João Miguel.

Curiosamente, muitos barbudos passam. De terno, de jeans, de bermuda e tênis. Todos, quase sempre, fechados. São belos.

As moças, de fato, possuem uma deselegância discreta. Nada que não lhes atribua um charme sisudo.

A "cultura" está em todas as esquinas. Teatros, teatros, teatros. Botecos, cafés, espaços culturais, museus. A cerveja parece ser a bebida do Baco regente.

Nas esquinas cheias, os passos apressados jogam-se à frente das rodas motorizadas. As faixas de pedestres, obviamente, não funcionam. A tática é arriscar-se. Mas sem um tiquinho que seja de dó. E que freiem os motores a mil. Estes, aliás, vêem nas buzinas bocas nervosas de seus discursos inflamados. Com elas, manifestam-se por tudo e qualquer coisa.

Os amigos? Ah, estes, sim, marcaram a primeira passagem. Risos e "sussurros fora-da-lei." A saudade já até bate. Até o momento solitário segue embalado pela doce companhia dos divertidos instantes vividos.

Enquanto os goles adocicados descem goela abaixo, o coração se aperta. Uma saudade, do futuro que voltará a ser e do que foi sem volta breve, toma conta.

Ao viver o momento e respirar o cinzento ar de São Paulo, esqueço dos entraves e desejo viver aqui. Pode ser mero anseio instatâneo. Mas que deixa a sensação de uma semana de impossível descrição. Pelos homens e mulheres, pelo concreto, pelo vertical, pelo novo misturado ao antigo, pelas lágrimas, pelas alturas.

Conceição

Queria ser como ela, que crônica faz até quando perde as chaves do carro...

O futuro da saudade

De onde vem a saudade? Remetida sempre ao passado, ela faz crer que algo foi suficientemente bom. Por isso, provoca a memória. Aperta o peito. Arranca sorrisos... ou lágrimas.

É possível sentir saudade de algo que fez sofrer? E saber no agora que um dia se sentirá saudade de um instante?

Se possível fosse, sentiria saudade do cheiro orgânico de jaca caída, de água batida, da janela de casa. Ou dos dias de lasanha na sala sem janelas, onde mamãe serve a todos, faceiros, falastrões e de pança cheia.

Teria a saudade um gosto? E cor?

Há quem diga que nunca sentiu saudade. Ledo engano. Ainda que as portas da alma estejam trancafiadas, ela e suas sutilezas não tardam a chegar. E, quando menos se espera, o pensamento voa num momento felicitoso. E o risinho de canto de boca - mesclado, por vezes, às lágrimas que escorrem inconformadas - surge, sem mais nem por quê.

Saudade não se busca, idealiza, deseja. É relampejo posterior à felicidade, lembrando ao ego do alimento saboroso de outros tempos. Passados tempos...